Rafael Victor
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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
(IN)Sanidade
Eles. Elas. Possuem a incrível capacidade de arrancar as últimas. Migalhas. Sãs. Sanidade do límbico pré-frontal que vos fala. Liga. Chama. 1. 9. 2. Venham, de branco. Tragam-me as camisas de força. Injetem-me os benzodiazepínicos. Apliquem-me as voltagens. Tranquem-me em quartos aveludados, fofos. brancos. De óculos escuros. Assim, mais seguro. Não mais gritos. Não mais textos. Não mais clichês em título.
Pragmatismo
Os seres humanos são criaturas pragmáticas por natureza. Até mesmo as mais promissoras loucuras são meticulosamente concebidas e executadas. E nem quero mencionar as tantas genialidades ou as notavelmente numerosas mediocridades. E a realidade, criada por tais criaturas, torna-se plana, sem curvas, sonolenta.
Rafael Victor
terça-feira, 11 de novembro de 2014
Same boat
Deu-se conta de que as afinidades humanas interligam as pessoas num âmbito superior ao das relações estabelecidas: unem seus destinos, ainda que na distância física e temporal. Por fim, todos acabam se encontrando no mesmo barco, uma embarcação ou nave gigantesca que navega lentamente por mares não explorados. E a solidão não tinha vaga.
Rafael Victor
domingo, 9 de novembro de 2014
Anti-cardíaco
Viva a gélido emoção felina que nesse momento me abate o miocárdio.
Viva também o calor vulcânico que ludibria esse reles encéfalo, que se julga lítico, anti-cardíaco.
Morte a His! Morte a Purkinje!
Deixem-me ser ausente.
Deixem-me ser silencioso.
Deixem-me abandonar essa hostil natureza pulsante que me rouba o oxigênio!
Serei tal glacial, tanto a ponto de.
Isolamento, internamente, da mais enérgica estrela que, a seu ditoso tempo, me fará o obséquio de sublimar a extenuante solidez externa.
E tudo, uma vez mais, será vibrante.
E tudo, mais uma vez, será luminoso.
E tudo será, novamente, aquecido e pulsante.
E de felino, serei cachorro, lobo caçador.
De lítico serei brisante, diáfano dançante sobre matérias ondulantes.
E, de Anti-cardíaco, serei Cerebral.
Ainda mais: serei Límbico.
Viva também o calor vulcânico que ludibria esse reles encéfalo, que se julga lítico, anti-cardíaco.
Morte a His! Morte a Purkinje!
Deixem-me ser ausente.
Deixem-me ser silencioso.
Deixem-me abandonar essa hostil natureza pulsante que me rouba o oxigênio!
Serei tal glacial, tanto a ponto de.
Isolamento, internamente, da mais enérgica estrela que, a seu ditoso tempo, me fará o obséquio de sublimar a extenuante solidez externa.
E tudo, uma vez mais, será vibrante.
E tudo, mais uma vez, será luminoso.
E tudo será, novamente, aquecido e pulsante.
E de felino, serei cachorro, lobo caçador.
De lítico serei brisante, diáfano dançante sobre matérias ondulantes.
E, de Anti-cardíaco, serei Cerebral.
Ainda mais: serei Límbico.
Rafael Victor
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
Recém-liberto
A sensação de recém-liberdade é como a de um pássaro que, miraculosamente, conseguiu retirar de suas asas todo o petróleo viscoso que pesava e o impedia de alçar sua simbólica liberdade. Como é bom voar...
Rafael Victor
Frase sem efeito
A vida não é mãe, é madrasta. Mais que isso: é capoeirista; não cansa de dar rasteiras, em sequência. Ainda bem que a gente sabe pular.
Rafael Victor
domingo, 2 de novembro de 2014
Sobre atuar
Não quero viver na dura realidade, encarando a verdade crua do mundo semi-material, fantasiando problemas e soluções. Quero vivenciar minhas fantasias, criando dentro de minha própria realidade particular, com toda minha verdade.
Rafael Victor
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Você
De repente você muda tudo, e tudo muda você.
Você que andava sozinho, agora anda acompanhado.
Você que com tudo se emocionava, chorava, agora se surpreende com as risadas que dá frente a tudo.
Você que sempre se desesperava, agora, seja por exaustão, seja por evolução, se depara tranquilo com as vicissitudes.
Você, que costumava sofrer por amores platônicos, agora voa livre entre vários amores e, contra sua vontade, é alvo do platonismo de outrem.
Você que costumava sonhar acordado, agora acorda dentro dos sonhos e os torna sua realidade particular.
Você, que se entregava à apatia ociosa, agora se lança ao superlativo furacão de atividades.
Você, que ansiava por se entregar aos braços do anjo mais piedoso para com a humanidade, agora aceita e até se deleita com as vastas possibilidades que a vida física pode lhe trazer.
Você que tinha medo de tudo, continua com vários medos, mas agora se permite ousar.
E por mais mudanças que tenham havido, você continua você, mais do que nunca você. E você, aos poucos, sem perceber, aceita você, assim, como é.
Rafael Victor
quinta-feira, 1 de maio de 2014
Astrolóquios
No início era só Peixes, com um toque de Sagitário. Mas era só. Então surgiram alguns Aquários e tantos outros Gêmeos. Porém vieram e já se foram, há muito. Virgens apareceram, dançaram, riram, fugiram. Por fim, Peixes encontrou mais Gêmeos e Virgem, e esses nem ficaram nem se foram, simplesmente estiveram em algum lugar próximo ou distante. Mudando de foco, chegou Touro, mas Touro trazia consigo um Caranguejo qualquer. No mesmo momento, Escorpião fugiu com a chegada de Leão, que era mansinho. Leão ficou e provavelmente ficaria por muito mais tempo. Mas era mansinho pois já possuía seu reino, bem na selva.
E Peixes, em toda essa nadada, era só Peixes, com um toque de Sagitário. Até que esbarrou em outro da sua espécie, outro que já havia avistado em outras paragens, signo mais encantador que existia. Era Peixes, bem a sua frente. Se encantou e encantou. Mas morria de medo de carneiros e Áries vinha logo atrás, sempre dominador. Fugiu, apressadamente...
E no fim era só Peixes, com um toque de Sagitário. Mas seria esse o fim? Preferia acreditar que não.
Rafael Victor
Vendaval
Veio como o vento. Como um vendaval. Entrou pela boca, olhos, ouvidos, narinas e fez uma bagunça por dentro. Tornou-se furacão em tão pouco espaço e tirou tudo do lugar. A cavidade já estava tão vazia e tão cheia daquele vento todo, quando esse cessou e escapou sorrateiramente pelos mesmos orifícios que entrou. E o interior ficou vazio, sem vento nem nada. Só havia, sei lá, saudade.
Rafael Victor
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Inquietudes e Brainstorms - Questionamentos aleatórios
E se houvesse certezas nas mentes humanas, seria a vida mais fácil? Frente a tantas dúvidas, incertezas e inseguranças, me deparo com esse questionamento a me latejar na cabeça. Quando inúmeros fatores externos passam a influir e contribuir diretamente nessas dúvidas, o desespero pelo desconhecimento da verdade parece a ponto de vaporizar a massa encefálica interna a meu protuberante crânio.
E, por que saber a verdade? Porque talvez assim seja mais fácil. Mais fácil como? Não teria o homem mais incertezas, quanto mais certezas tivesse? Não teria assim consciência de muitas outras mentiras quanto mais verdades soubesse? E seriam as provas terrenas apresentadas suficientes para atestar uma suposta verdade, "com certeza"?Mas o que é verdade? O que é mentira? Que explicação há para a existência da consciência? E, por fim, não seria a ignorância uma zona de segurança, altamente confortável e auto-conservativa? A resposta é: não sei. Mas, trocentos mil questionamentos dessa natureza podem, vez ou outra, permear minha consciência.
E, sim, não encontro paz nas teorias bem formuladas daqueles outros que, como eu, exalaram suas inquietudes na forma de questionamentos aparentemente sem sentido (e provavelmente sem sentido, verdadeiramente). Ah, a Paz. Essa eu encontrei numa crença desinteressada em complexas e plausíveis explicações acerca do todo que nos cerca: a fé. A paz, creio ser o que realmente importa nessa que chamamos de vida, e mesmo que a fé não nos venha acalmar todas as inquietudes, devido a uma possível falta de explicações que nossas mentes atrasadamente materiais teimam em atestar, ela nos proporciona essa paz, a verdadeira felicidade. E não é pra isso que todos vivemos? Para buscar a tão sonhada felicidade? Acredito ser essa um estado apenas, e a paz, paz de deitar, de sonhar, de sorrir de verdade, nos proporciona uma felicidade pura, leve, quase efêmera. E assim nosso caminho vai sendo seguido, buscando-se a paz, para se flutuar pelo destino.
E, por que saber a verdade? Porque talvez assim seja mais fácil. Mais fácil como? Não teria o homem mais incertezas, quanto mais certezas tivesse? Não teria assim consciência de muitas outras mentiras quanto mais verdades soubesse? E seriam as provas terrenas apresentadas suficientes para atestar uma suposta verdade, "com certeza"?Mas o que é verdade? O que é mentira? Que explicação há para a existência da consciência? E, por fim, não seria a ignorância uma zona de segurança, altamente confortável e auto-conservativa? A resposta é: não sei. Mas, trocentos mil questionamentos dessa natureza podem, vez ou outra, permear minha consciência.
E, sim, não encontro paz nas teorias bem formuladas daqueles outros que, como eu, exalaram suas inquietudes na forma de questionamentos aparentemente sem sentido (e provavelmente sem sentido, verdadeiramente). Ah, a Paz. Essa eu encontrei numa crença desinteressada em complexas e plausíveis explicações acerca do todo que nos cerca: a fé. A paz, creio ser o que realmente importa nessa que chamamos de vida, e mesmo que a fé não nos venha acalmar todas as inquietudes, devido a uma possível falta de explicações que nossas mentes atrasadamente materiais teimam em atestar, ela nos proporciona essa paz, a verdadeira felicidade. E não é pra isso que todos vivemos? Para buscar a tão sonhada felicidade? Acredito ser essa um estado apenas, e a paz, paz de deitar, de sonhar, de sorrir de verdade, nos proporciona uma felicidade pura, leve, quase efêmera. E assim nosso caminho vai sendo seguido, buscando-se a paz, para se flutuar pelo destino.
Rafael Victor
domingo, 7 de julho de 2013
Quereres escritos, quereres descritos, devaneios...
Querer escrever. Querer viver. Querer se libertar. São tantos quereres. Quereres limitantes. Quereres não concretizados. Querer, mais que tudo. Querer, mais que não querer. Mas será querer poder? O querer poder ser mais um dentre tantos quereres? Não, querer não é poder. Sim, querer poder é só mais um querer. Pra te provar que querer não é poder, bastas ler o meu querer aqui descrito. Quis escrever sobre os quereres, escrevi. Mas antes disso, quis que você gostasse dos quereres, mas isso aparenta estar tão longe de ser atingido porque nem mesmo eu, autor da epifania dos quereres, gostei de vê-los escritos por minhas mãos e descritos pela minha consciência quase perdida, quase querida.
Rafael Victor
quarta-feira, 27 de março de 2013
Consciência Atemporal
Não sou de esquecer fatos facilmente;
Não risco poemas desgastados,
Não rasgo fotos amareladas,
Não queimo cartas antigas
ou vendo livros usados.
Guardo tudo num cofre bem lacrado
Todo esse meu relicário do passado.
Porém vivo para o futuro, olhos para o horizonte
Anseio em inovar e corro para frente
Tudo sem tirar os pés do presente.
Tudo aderido a uma força que mantenha:
Minha consciência no Hoje,
Minha Lembrança no Passado,
Minha Lógica para o Futuro.
Memória adormecida, em puro devaneio intinerante
Coração presente, no presente. Mas não somente.
Também ali, ou acolá, aqui, noutro lugar.
Pés no Chão, Cabeça nas Nuvens
Mãos Tateantes, Pernas Vacilantes
Estômago vazio, Pulmões Eufóricos
Corpo Dividido, Espírito Disseminado...
Consciência Atemporal...
Não risco poemas desgastados,
Não rasgo fotos amareladas,
Não queimo cartas antigas
ou vendo livros usados.
Guardo tudo num cofre bem lacrado
Todo esse meu relicário do passado.
Porém vivo para o futuro, olhos para o horizonte
Anseio em inovar e corro para frente
Tudo sem tirar os pés do presente.
Tudo aderido a uma força que mantenha:
Minha consciência no Hoje,
Minha Lembrança no Passado,
Minha Lógica para o Futuro.
Memória adormecida, em puro devaneio intinerante
Coração presente, no presente. Mas não somente.
Também ali, ou acolá, aqui, noutro lugar.
Pés no Chão, Cabeça nas Nuvens
Mãos Tateantes, Pernas Vacilantes
Estômago vazio, Pulmões Eufóricos
Corpo Dividido, Espírito Disseminado...
Consciência Atemporal...
Rafael Victor
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Utopia Infantil (não morre tão facilmente)
(...) Sim, Chorou. Mas entre um soluço e outro enxugou as lágrimas. Pisou o pé, cruzou os braços, virou o rosto. Não iria crescer. Se recusava a isso. E assim foi. Mesmo que tivesse que viver sempre na contramão. Mesmo que se opusesse ao ritmo do tempo. Mesmo que se ferisse ao sofrer atrito com sua própria biologia, teimando em arrastá-lo para o outro lado. E ninguém jamais tiraria isso dele. Essa alegria saltitante, essa ingenuidade infante, e até uma certa manha chorante. E com um sorriso estampado no rosto, um olhar brilhante, e uma alegria contagiante, foi, caminhando, contra a correnteza...
Rafael Victor
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
Frente a frente
Estava esperando há algum tempo naquela sala cinzenta. Parecia uma sala de interrogatório: paredes de concreto, uma mesa, duas cadeiras (uma em cada ponta da mesa), um botão aqui, outro ali, uma porta atrás da cadeira dele, duas portas do outro lado da sala, nenhuma janela. A iluminação era bem razoável, permitindo ver todos esses detalhes da sala. Mas não era possível ver nenhuma lâmpada...
Lá não estava frio, muito menos calor. Mas ele começou a suar. E a tremer.
Do nada começou a pensar em sua vida. O que havia feito, o que havia sentido. "Será que fiz algo de bom? Mas o que é bom? Será o certo? Mas, o que é certo? E o errado? Sinceramente, não sei." Continuava a suar. Agora olhava para todos os cantos, nervoso. Até que a porta atrás dele se abriu e ela entrou. Aquela misteriosa mulher encapuzada que o trouxera até ali. Ela entrou, passou a mão no ombro dele e se dirigiu para o outro lado da sala. Baixou o capuz, tirou a capa, revelando um belo e decotado vestido preto. Sua tez pálida, porém macia, seus olhos escuros (pareciam roxos), seu nariz arrebitado, seu busto farto, tudo chamou, surpreendentemente, a atenção dele. Se não estivesse numa situação tão complexa teria olhado-a com olhos um pouco mais audaciosos.
Ela pendurou a capa nas costas das cadeiras. Soltou os longos e ondulados cabelos, brincando um pouco com eles, suspirou e puxou a cadeira. Sentou-se elegantemente. Suas mãos quase transparentes, dedos finos estampando os mais finos anéis e a coloração azulada das unhas, postas sobre a mesa, seus olhos, misteriosos, postos, vidrados no rosto dele. Sua expressão era indecifrável. Poderia estar sorrindo, ou poderia estar reprovando-o. E isso o deixava ainda mais nervoso.
No seu olhar parecia rondar um pouco de curiosidade. Ele, tremendo, começou a rever, mentalmente, toda sua vida. Será que tinha sido mau? Sim, admitia que sofrera sua explosões algumas vezes. Noutras, implodiu, abafando seus sentimentos mais revoltados. Mas sempre, sempre tentou fazer o que acreditava ser certo. E, provavelmente, conseguiu, mesmo que só um pouco. Talvez até tivesse tido seus orgulhos, suas intolerâncias,mas conseguiu o perdão, e perdoou também. Lembrou-se dos sorrisos(e risos, e gargalhadas) que provocou, dos abraços que distribuiu, dos beijos que lançou. Lembrou-se de como se sentia bem ao praticamente se anular ao ajudar quem quer que lhe pedisse ajuda. Lembrou-se de como se sentira culpado quando não conseguiu fazê-lo. Aliviou-se ao recordar que não provocara muitas lágrimas. Lembrou-se de amar todos que o rodeavam igualmente, sendo criticado por isso. Mas agora estava em dúvida. Naquele momento, naquela sala, naquela presença. Nada parecia mais fazer sentido. Ele parecia estar divisando um destino imutável e inexorável. Deixava transparecer seu desespero.
-Qual o meu destino?
A senhora sorriu.
-O que você acha?
-Não sei o que achar. Tenho medo do que pensar. No momento tenho a sensação de estar esperando por algo irrefutável, sem volta.
-Shh. Você não sabe o que está falando. Do lugar para onde você vai há volta. De todos os lugares nesse universo há volta. Todos têm direito a ir e vir. Todos têm direito a mudar. Todos têm uma segunda chance.
-Então eu terei uma segunda chance?
-Não sei. Não sou eu quem pode lhe dizer. Isso só depende de você. Depois que eu sair, você escolherá uma dessas portas aqui atrás.- Se levantando - Agora, se me der licença, tenho muitos outros e outras para atend...
-Espera!
-...
-Eu tenho uma última pergunta! O que é certo?
-...
-Qual é a verdade?
Ela esboçou um leve sorriso. Pegou sua capa, vestiu-a. Andou lentamente até atrás da cadeira dele. O coração dele mimetizava o ribombar dos trovões de uma furiosa tempestade. Ela colocou o capuz, abaixou-se para perto de sua cabeça e sussurrou em seu ouvido direito:
-Você ainda não sabe?
E saiu.
Lá não estava frio, muito menos calor. Mas ele começou a suar. E a tremer.
Do nada começou a pensar em sua vida. O que havia feito, o que havia sentido. "Será que fiz algo de bom? Mas o que é bom? Será o certo? Mas, o que é certo? E o errado? Sinceramente, não sei." Continuava a suar. Agora olhava para todos os cantos, nervoso. Até que a porta atrás dele se abriu e ela entrou. Aquela misteriosa mulher encapuzada que o trouxera até ali. Ela entrou, passou a mão no ombro dele e se dirigiu para o outro lado da sala. Baixou o capuz, tirou a capa, revelando um belo e decotado vestido preto. Sua tez pálida, porém macia, seus olhos escuros (pareciam roxos), seu nariz arrebitado, seu busto farto, tudo chamou, surpreendentemente, a atenção dele. Se não estivesse numa situação tão complexa teria olhado-a com olhos um pouco mais audaciosos.
Ela pendurou a capa nas costas das cadeiras. Soltou os longos e ondulados cabelos, brincando um pouco com eles, suspirou e puxou a cadeira. Sentou-se elegantemente. Suas mãos quase transparentes, dedos finos estampando os mais finos anéis e a coloração azulada das unhas, postas sobre a mesa, seus olhos, misteriosos, postos, vidrados no rosto dele. Sua expressão era indecifrável. Poderia estar sorrindo, ou poderia estar reprovando-o. E isso o deixava ainda mais nervoso.
No seu olhar parecia rondar um pouco de curiosidade. Ele, tremendo, começou a rever, mentalmente, toda sua vida. Será que tinha sido mau? Sim, admitia que sofrera sua explosões algumas vezes. Noutras, implodiu, abafando seus sentimentos mais revoltados. Mas sempre, sempre tentou fazer o que acreditava ser certo. E, provavelmente, conseguiu, mesmo que só um pouco. Talvez até tivesse tido seus orgulhos, suas intolerâncias,mas conseguiu o perdão, e perdoou também. Lembrou-se dos sorrisos(e risos, e gargalhadas) que provocou, dos abraços que distribuiu, dos beijos que lançou. Lembrou-se de como se sentia bem ao praticamente se anular ao ajudar quem quer que lhe pedisse ajuda. Lembrou-se de como se sentira culpado quando não conseguiu fazê-lo. Aliviou-se ao recordar que não provocara muitas lágrimas. Lembrou-se de amar todos que o rodeavam igualmente, sendo criticado por isso. Mas agora estava em dúvida. Naquele momento, naquela sala, naquela presença. Nada parecia mais fazer sentido. Ele parecia estar divisando um destino imutável e inexorável. Deixava transparecer seu desespero.
-Qual o meu destino?
A senhora sorriu.
-O que você acha?
-Não sei o que achar. Tenho medo do que pensar. No momento tenho a sensação de estar esperando por algo irrefutável, sem volta.
-Shh. Você não sabe o que está falando. Do lugar para onde você vai há volta. De todos os lugares nesse universo há volta. Todos têm direito a ir e vir. Todos têm direito a mudar. Todos têm uma segunda chance.
-Então eu terei uma segunda chance?
-Não sei. Não sou eu quem pode lhe dizer. Isso só depende de você. Depois que eu sair, você escolherá uma dessas portas aqui atrás.- Se levantando - Agora, se me der licença, tenho muitos outros e outras para atend...
-Espera!
-...
-Eu tenho uma última pergunta! O que é certo?
-...
-Qual é a verdade?
Ela esboçou um leve sorriso. Pegou sua capa, vestiu-a. Andou lentamente até atrás da cadeira dele. O coração dele mimetizava o ribombar dos trovões de uma furiosa tempestade. Ela colocou o capuz, abaixou-se para perto de sua cabeça e sussurrou em seu ouvido direito:
-Você ainda não sabe?
E saiu.
Rafael Victor
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Utopia infantil.
Não queria crescer. Sentia medo dos adultos. E num devaneio insano, desejou intensamente não mais crescer. E nunca mais cresceu. Assim, pode ir pros mundos encantados de suas histórias favoritas, cheias de magia e diversão. Até que lhe deram um susto e ele acordou sobressaltado. Acordou no selvagem mundo dos adultos. E chorou.
Rafael Victor
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Angústias.
Insônia.
Olhos Secos.
Olhos Vermelhos.
Boca Seca.
Olhos Saltados. Em pleno escuro.
Mãos, violentas, arrancam fios do cabelo.
Trêmulas, incapazes.
As pregas vocais rangem, numa louca tentativa de soltar uma nota altíssima, o mais desafinado possível.
Tudo em busca de um desabafo. Algo que venha aliviar a dor no seu peito, a estafa em seu cérebro.
Palpitações.
Silêncio...
Gritar resolve?
Decide chorar.
Olhos secos, não permitem.
Ira.
E aqueles pensamentos que o angustiam não param de invadir sua mente.
Dúvidas. Questionamentos. E, até, possibilidades. Tudo irritando seus neurônios e suas supra-renais.
Palpitação. Pupilas dilatadas. Escuro, ineficaz na arte de esconder as coisas. Muito menos, pensamentos.
Dormir. Pra esquecer.
Insônia.
Preso, num quarto. Preso, num corpo. Preso, no próprio cérebro.
Quer se libertar. Quer voar. Deseja loucamente qualquer coisa similar.
Ou, pelo menos, entender.
Olhos Secos.
Olhos Vermelhos.
Boca Seca.
Olhos Saltados. Em pleno escuro.
Mãos, violentas, arrancam fios do cabelo.
Trêmulas, incapazes.
As pregas vocais rangem, numa louca tentativa de soltar uma nota altíssima, o mais desafinado possível.
Tudo em busca de um desabafo. Algo que venha aliviar a dor no seu peito, a estafa em seu cérebro.
Palpitações.
Silêncio...
Gritar resolve?
Decide chorar.
Olhos secos, não permitem.
Ira.
E aqueles pensamentos que o angustiam não param de invadir sua mente.
Dúvidas. Questionamentos. E, até, possibilidades. Tudo irritando seus neurônios e suas supra-renais.
Palpitação. Pupilas dilatadas. Escuro, ineficaz na arte de esconder as coisas. Muito menos, pensamentos.
Dormir. Pra esquecer.
Insônia.
Preso, num quarto. Preso, num corpo. Preso, no próprio cérebro.
Quer se libertar. Quer voar. Deseja loucamente qualquer coisa similar.
Ou, pelo menos, entender.
Rafael Victor
terça-feira, 3 de julho de 2012
Sobre Escrever... Rafael Victor
Não quero contar vantagens. Não quero contar mentiras. Não quero escrever besteiras.
Só quero contar histórias. Reais ou imaginárias, que nada mais são que outro tipo de realidade. Quero tocar corações, quero estimular mentes, quer escrever de verdade, para pessoas de verdade. Quero escrever sentimentos, viver o que escrevo, contar o que sinto. Porque eu sou tudo isso aí. Sou o que sou e o que quero ser. Sou que penso, o que sinto. Sou o que falo, o que escrevo. E também sou o que creio...
Só quero contar histórias. Reais ou imaginárias, que nada mais são que outro tipo de realidade. Quero tocar corações, quero estimular mentes, quer escrever de verdade, para pessoas de verdade. Quero escrever sentimentos, viver o que escrevo, contar o que sinto. Porque eu sou tudo isso aí. Sou o que sou e o que quero ser. Sou que penso, o que sinto. Sou o que falo, o que escrevo. E também sou o que creio...
Rafael Victor
Sumiço
Sumiu.
Simplesmente tornou-se invisível.
Como diriam os populares, "Escafedeu".
"Morreu?" perguntariam os outros, quando o vissem de volta.
Precisava daquele tempo, sozinho.
Os outros jamais poderiam entender.
Parecia ser um desejo recorrente, e até de conhecimento de alguns, mas era tudo o que queria: Esquecer.
Esquecer só um pouco, só por um tempo.
Esquecer (Temporariamente) tudo e todos.
Desaparecer.
Descansar.
Pensar.
E, quem sabe, meditar.
Mas tudo por pouquíssimo tempo.
Algo chamado apego não deixava ele ficar muito longe do mundo que conhecera.
Nem para prolongar o tempo que passava no seu próprio mundo interior.
Mas no momento em que estava só, de olhos fechados, respirou fundo e viu sua vida passar diante de seus olhos, como um filme.
Esboçou um leve sorriso e decidiu que era hora de voltar.
Simplesmente tornou-se invisível.
Como diriam os populares, "Escafedeu".
"Morreu?" perguntariam os outros, quando o vissem de volta.
Precisava daquele tempo, sozinho.
Os outros jamais poderiam entender.
Parecia ser um desejo recorrente, e até de conhecimento de alguns, mas era tudo o que queria: Esquecer.
Esquecer só um pouco, só por um tempo.
Esquecer (Temporariamente) tudo e todos.
Desaparecer.
Descansar.
Pensar.
E, quem sabe, meditar.
Mas tudo por pouquíssimo tempo.
Algo chamado apego não deixava ele ficar muito longe do mundo que conhecera.
Nem para prolongar o tempo que passava no seu próprio mundo interior.
Mas no momento em que estava só, de olhos fechados, respirou fundo e viu sua vida passar diante de seus olhos, como um filme.
Esboçou um leve sorriso e decidiu que era hora de voltar.
sábado, 30 de junho de 2012
A história de um Palhaço triste
O palhaço chegou no camarim e sentou-se na frente do espelho. Arrancou violentamente o nariz vermelho, rompendo o elástico que o prendia em sua cabeça. Inspirou profundamente e expirou rapidamente, bufando, enquanto sua coluna ficava ainda mais encurvada. Pouco a pouco, levantou a cabeça e voltou o seu olhar para o espelho. E ali encarou aquele rosto maquiado, cheio de tintas coloridas até que olhou no fundo dos seus próprios olhos. E percebeu como eles se transformaram, com o passar do tempo, num oceano de tristeza e amarguras. Mirando aquele oceano, parou um pouco para pensar.Tinha vindo de um show incrível, cheio de risadas e alegria. O palhaço, com sua maquiagem colorida e engraçada fazia a todo momento galhofa de si mesmo, zonava com suas próprias desgraças. E ali, no picadeiro ou no palco, ele se realizava ao ouvir os risos e aplausos do público que sempre lotavam a platéia de suas apresentações. Entre jovens, adultos, velhos e crianças, todos se divertiam com suas, literalmente, palhaçadas.
E agora ele estava ali, no camarim improvisado do seu velho trailer, cheio de roupas coloridas, perucas e potes de tintas para o rosto. Havia também uma caixa onde ele guardava seus narizes redondos, das mais variadas cores. Ainda ouvia os aplausos e risadas em sua cabeça quando percebeu uma gota d'água manchando a tinta azul que estava ao redor de seus olhos. Sim, ele estava chorando, porque por trás de seu sorriso, escondida em suas palhaçadas estava sua tristeza.
Sim, ele estava cansado de toda aquela vida. Ele amava tudo aquilo que fazia, mas estava cansado de ser sempre o desgraçado, de ser sempre o motivo de riso dos outros e nunca, nunca sorrir sinceramente. Afinal, ele também era um ser humano. Mas ele só vivia como palhaço. Sua vida como ser humano não era grande coisa. Sozinho, isolado da sociedade, ele buscava um refúgio ao rir de suas próprias desgraças.
Seu relógio digital apitou. Era uma hora da manhã. Mais uma madrugada solitária na sua vida de palhaçadas. Mais um dia silencioso que se iniciava após uma noite barulhenta. Em meio aos ecos das gargalhadas e das músicas circenses, dormia longe a distância uma lembrança dele, de sua infância, uma época feliz. Uma época em que ele ria de verdade, fosse de suas próprias desventuras ou de qualquer coisa banal que tivesse graça suficiente para enlarguecer seu sorriso. E recordando, mais lágrimas irromperam de seus olhos, manchando ainda mais sua maquiagem, que naquela noite estava ainda mais elaborada.
Então ele percebeu que, se ele erá capaz de levar o sorriso às outras pessoas, ele poderia encontrar um meio de sorrir também. E que só ele poderia fazer isso. Se tocou que a felicidade pode existir, assim como na sua infância longínqua, e que é preciso ir atrás dela ao invés de esperar que ela caia do céu. E que o primeiro passo para sorrir quando se está chorando é enxugar as lágrimas.
Então, de supetão, passou o dorso das mãos nos olhos para enxugar as lágrimas, sujando-as todas. Com isso, caiu tinta em seus olhos, ardendo profundamente e ele achou aquilo muito engraçado, deixando soar uma gostosa gargalhada. Pegou uma bacia d'água que jazia perto de sua mesa e lavou o rosto. Após enxugar-se com uma toalha branca, olhou-se novamente no espelho e conseguiu reconhecer aquele garotinho de outrora nos traços de sua face. Arrancou seu macacão de bolinhas coloridas, vestiu um paletó antigo sobre uma camiseta branca, uma calça jeans, colocou um chapéu coco na cabeça, pegou um guarda chuva e, antes de sair do trailer, virou-se para o interior dele, olhou todo o seu camarim improvisado, com todas aquelas cores, figurinos e objetos engraçados que o acompanharam em tantas palhaçadas. Com a mão sobre o interruptor, olhou tudo aquilo e, um pouco emocionado, deu um último suspiro e apagou as luzes fechou a porta e foi para o mundo. Alegre e saltitante, em busca da tão sonhada felicidade. Mas ele não tinha pressa, tinha todo o tempo do mundo e, na verdade, estava mais interessado no que essa jornada reservava para ele.
Só que ele não sabia, naquele momento, que a felicidade dele já existia, e estava logo ali, dentro de seu coração...
Rafael Victor
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