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terça-feira, 3 de julho de 2012

Mais uma de Amor

Há muito escutei o que não devia ter parado para escutar: Aguentei firmemente as ladainhas de homens, reis, mendigos, poetas, bardos, cavaleiros, bobos... falarem sobre como era amar. Todas aquelas pessoas queriam se valer de minha juventude e teimavam em tentar me ensinar a amar. E eu, perdido em minha pouca idade, nada podia entender: ora me convenciam das maravilhas que o amor proporcionaria para aqueles que mergulhassem de cabeça na sua correnteza, ora me aterrorizavam com todo o sofrimento e dor que eu poderia sentir, se eu teimasse em sentir quando o amor me ignorasse.

Eu ouvia, ouvia e sorria das loucuras daqueles velhos que pareciam se deliciar ao expor tantas experiências que aparentemente marcaram sua míseras vidas. Ria com uma soberbia ingênua, crente na minha possível imunidade contra tantos bens e tantos males. E meio às festas de cantorias amorosas dos velhos, vi de relance e voltei meu olhar para enxergar melhor. Lá estava ela, a imaculada donzela, seus cabelos vermelhos como o fogo voando ao vento em contraste com sua tez alva e pura e com a seda esmeralda do vestido bem marcado em seu corpo jovem. Com aquela visão meus olhos  se esbugalharam e meu queixo caiu. Meu coração bateu mais forte e ficou difícil de respirar. Experiente que estava, teoricamente, nesses assuntos de amor, percebi, graças às tantas lições dos meus velhos amigos velhos de cantigas, que esses sintomas eram de uma paixão ardente que nascia à primeira vista.

De repente me vi vivenciando todos os louros, fantasias, dores e sensações típicas do amor e de que há algum tempo atrás eu ria. Virei cantor, poeta, rei, mendigo, cavaleiro, bobo... Virei velho e voltei a ser novo, tudo internamente, tudo numa explosão de sentimentos. Fui à corte, me fiz conhecido, tornei-me cavaleiro; com um lenço de minha amada guardado sob minha camisa, lutei em guerras ferrenhas para conquistar seu amor. Cantei meu amor, a fim de ganhar o seu em troca. E depois de algum tempo, para combustão instantânea de todos os meus átomos, nossos lábios se uniram num calor ardente de um beijo proibido e rápido. Ali estavam todas as maravilhas do amor.

Mas também sofri. Outro cavaleiro passava na minha frente, roubava minha donzela. Sofri, meu coração doeu. Mas depois inflamou-se e desafiei-o para um duelo. Armas brancas, noite sem luar. Ali seria decidido o destino de meu amor por minha donzela. Espadas tiniram, uma contra a outra; a de meu desafiante atravessou meu ombro direito; a minha atravessou seu peito esquerdo. Eu tinha certeza que o que dera forças para vencer o duelo foi a chama daquele sentimento fortíssimo dentro de mim. Fatalmente machucado, com o ferimento sugando todas as minhas forças vitais, fui atrás de minha donzela, uma última vez.

Encontrei-a absorta em suas atividades. Ao me ver, ferido, pálido, morrendo, veio ao meu encontro, com os olhos cheios de lágrimas, colocando suas mãos puras sobre meu ferimento, tentando estancar o sangramento num desespero típico de uma pessoa amada. Seu toque só fez a ferida doer mais ainda e cai, enfraquecido no chão. Ela se jogou sobre mim, chorando. Eu já sentia a vida se desprender de mim. Tive a impressão de ver alguns anjos ao redor da minha querida. Reuni todas as forças que ainda tinha e beijei-a, como nunca havia feito e aquele beijo sim, me trouxe de volta. O sangue parecia voltar para dentro de mim e os tecidos se uniram novamente, formando uma leve cicatriz que aos poucos sumiu. De fato havia anjos ao seu redor, que aos poucos alçaram voo entoando seus cantos celestiais. Senti-me mais forte, senti-me vivo. O amor salvou-me da morte. Então olhei no castanho profundo dos olhos de minha donzela, enxuguei suas lágrimas e rimos, juntos, de tudo o que ocorrera. O amor nos salvou e, mais do que nunca nos uniu. Agora era só recomeçar...


Rafael Victor

Sobre Escrever... Rafael Victor

Não quero contar vantagens. Não quero contar mentiras. Não quero escrever besteiras.

Só quero contar histórias. Reais ou imaginárias, que nada mais são que outro tipo de realidade. Quero tocar corações, quero estimular mentes, quer escrever de verdade, para pessoas de verdade. Quero escrever sentimentos, viver o que escrevo, contar o que sinto. Porque eu sou tudo isso aí. Sou o que sou e o que quero ser. Sou que penso, o que sinto. Sou o que falo, o que escrevo. E também sou o que creio...


Rafael Victor

Sumiço

Sumiu.
Simplesmente tornou-se invisível.
Como diriam os populares, "Escafedeu".
"Morreu?" perguntariam os outros, quando o vissem de volta.
Precisava daquele tempo, sozinho.
Os outros jamais poderiam entender.
Parecia ser um desejo recorrente, e até de conhecimento de alguns, mas era tudo o que queria: Esquecer.
Esquecer só um pouco, só por um tempo.
Esquecer (Temporariamente) tudo e todos.
Desaparecer.
Descansar.
Pensar.
E, quem sabe, meditar.

Mas tudo por pouquíssimo tempo.
Algo chamado apego não deixava ele ficar muito longe do mundo que conhecera.
Nem para prolongar o tempo que passava no seu próprio mundo interior.

Mas no momento em que estava só, de olhos fechados, respirou fundo e viu sua vida passar diante de seus olhos, como um filme.
Esboçou um leve sorriso e decidiu que era hora de voltar.


Rafael Victor

domingo, 1 de julho de 2012

Mar, Chuva e Lágrimas

Saiu correndo de casa e foi até a praia. Chegando lá, em frente ao mar, aquela imensidão azul que o sempre confortava, quis chorar, mas as lágrimas não quiseram cair. Sentiu aquele cheiro salgado, ouviu o som das ondas bravias batendo na areia, sentiu levemente o calor do sol poente enquanto fechava os olhos, querendo esquecer de tudo. A brisa suave empurrou seu rosto e seu corpo e ele se jogou na brisa, caindo deitado na areia. E foi de tudo o que ele precisava. Ficou ali, imóvel, ainda ouvindo o som da água, que desde criança ajudava-o a relaxar. Sentia também o pinicar da areia em todo o seu corpo, irradiando ainda o calor de um dia inteiro de sol forte. E ali ele se sentiu confortável demais para se mover.

Só havia um motivo para ele ter chegado tão apressado àquela praia deserta, naquele cantinho secreto que ele sempre ia: queria esquecer, não queria sentir, simplesmente isso. Esperava que toda aquela energia natural o reintegrasse ao jeito que ele estava acostumado a ser. E que pelo menos uma lágrima escorresse pelo seu rosto, para assim aliviar dores de sua mente, de seu coração.

Mas ele simplesmente não podia. Não conseguia chorar. E muito menos se esquecer. Pelo menos era isso que ele queria. Queria não, precisava. Mas não podia. E agora ele se arrependia de todas as decisões que havia feito antes de toda essa situação que solitariamente e, praticamente voluntariamente.

Sim, logo ele, que havia decidido não sentir mais, agora sentia. Escolheu, há algum tempo, não sentir certos sentimentos, e, até certo ponto, havia conseguido. Negou alguns desses sentimentos o quanto pode, mas agora não podia. E para continuar a lista de "mas" e "poréns", agora também não havia mais tempo. Só sobrara o sofrimento.

Muitas cenas permeavam sua mente agora. Ali, deitado na areia, em frente aquele mar maravilhoso, com o céu agora tingido de um azul quase escuro caracterizando o crepúsculo, seu coração queria se arrepender de todas as impertinências de sua mente. Mente essa que controlou tanto o que o coração sentia que hoje só restou o sofrimento.

E em meio a tantos dilemas, as ondas foram ficando ainda mais bravias, as nuvens foram cerrando o céu, tornando-o ainda mais escuro, e um trovão ribombou na distância: uma tempestade se formava. E logo, logo, a chuva torrencial começou, ensopando o garoto ali deitado, lavando até sua alma. Agora sim, ele conseguiu chorar. Chorou, junto com a natureza. E a água que surgiu de seus olhos se uniu com aquela água que surgia dos céus e acabaram por limpar seu coração e sua mente.

Então, mesmo com todo o peso da água dificultando, ele se levantou. Olhou para o mar, enxugou as lágrimas (figurativamente, apenas). "Não, eu não sou assim!", pensou, "Não é algo tão pequeno assim que irá me derrubar...". Então a chuva parou, o mar se acalmou, as nuvens se dissiparam, deixando à mostra um céu azul marinho bastante escuro permeado de estrelas. Ao longe, só se via o leve contorno da lua nova, tornando a noite ainda mais escuro. E ali, em meio a escuridão, o garoto riu, gargalhou, balançando a cabeça. Bateu na roupa para tirar a areia (que naquela altura já havia virado lama!), olhou novamente pro mar, aquele seu amigo que sempre lhe ajudava, olhou para o céu e para algumas estrelas em particular, que lhe lembravam de momentos em particular também e mais uma vez sorriu. Depois se tocou o quanto era tarde e como o tempo havia passado de maneira imperceptível. E do mesmo jeito apressado que chegou, foi embora, agora rindo, às gargalhadas, um pouco insano, talvez...


Rafael Victor

sábado, 30 de junho de 2012

A história de um Palhaço triste

O palhaço chegou no camarim e sentou-se na frente do espelho. Arrancou violentamente o nariz vermelho, rompendo o elástico que o prendia em sua cabeça. Inspirou profundamente e expirou rapidamente, bufando, enquanto sua coluna ficava ainda mais encurvada. Pouco a pouco, levantou a cabeça e voltou o seu olhar para o espelho. E ali encarou aquele rosto maquiado, cheio de tintas coloridas até que olhou no fundo dos seus próprios olhos. E percebeu como eles se transformaram, com o passar do tempo, num oceano de tristeza e amarguras. Mirando aquele oceano, parou um pouco para pensar.


Tinha vindo de um show incrível, cheio de risadas e alegria. O palhaço, com sua maquiagem colorida e engraçada fazia a todo momento galhofa de si mesmo, zonava com suas próprias desgraças. E ali, no picadeiro ou no palco, ele se realizava ao ouvir os risos e aplausos do público que sempre lotavam a platéia de suas apresentações. Entre jovens, adultos, velhos e crianças, todos se divertiam com suas, literalmente, palhaçadas.


E agora ele estava ali, no camarim improvisado do seu velho trailer, cheio de roupas coloridas, perucas e potes de tintas para o rosto. Havia também uma caixa onde ele guardava seus narizes redondos, das mais variadas cores. Ainda ouvia os aplausos e risadas em sua cabeça quando percebeu uma gota d'água manchando a tinta azul que estava ao redor de seus olhos. Sim, ele estava chorando, porque por trás de seu sorriso, escondida em suas palhaçadas estava sua tristeza.


Sim, ele estava cansado de toda aquela vida. Ele amava tudo aquilo que fazia, mas estava cansado de ser sempre o desgraçado, de ser sempre o motivo de riso dos outros e nunca, nunca sorrir sinceramente. Afinal, ele também era um ser humano.  Mas ele só vivia como palhaço. Sua vida como ser humano não era grande coisa. Sozinho, isolado da sociedade, ele buscava um refúgio ao rir de suas próprias desgraças.


Seu relógio digital apitou. Era uma hora da manhã. Mais uma madrugada solitária na sua vida de palhaçadas. Mais um dia silencioso que se iniciava após uma noite barulhenta. Em meio aos ecos das gargalhadas e das músicas circenses, dormia longe a distância uma lembrança dele, de sua infância, uma época feliz. Uma época em que ele ria de verdade, fosse de suas próprias desventuras ou de qualquer coisa banal que tivesse graça suficiente para enlarguecer seu sorriso. E recordando, mais lágrimas irromperam de seus olhos, manchando ainda mais sua maquiagem, que naquela noite estava ainda mais elaborada.


Então ele percebeu que, se ele erá capaz de levar o sorriso às outras pessoas, ele poderia encontrar um meio de sorrir também. E que só ele poderia fazer isso. Se tocou que a felicidade pode existir, assim como na sua infância longínqua, e que é preciso ir atrás dela ao invés de esperar que ela caia do céu. E que o primeiro passo para sorrir quando se está chorando é enxugar as lágrimas.


Então, de supetão, passou o dorso das mãos nos olhos para enxugar as lágrimas, sujando-as todas. Com isso, caiu tinta em seus olhos, ardendo profundamente e ele achou aquilo muito engraçado, deixando soar uma gostosa gargalhada. Pegou uma bacia d'água que jazia perto de sua mesa e lavou o rosto. Após enxugar-se com uma toalha branca, olhou-se novamente no espelho e conseguiu reconhecer aquele garotinho de outrora nos traços de sua face. Arrancou seu macacão de bolinhas coloridas, vestiu um paletó antigo sobre uma camiseta branca, uma calça jeans, colocou um chapéu coco na cabeça, pegou um guarda chuva e, antes de sair do trailer, virou-se para o interior dele, olhou todo o seu camarim improvisado, com todas aquelas cores, figurinos e objetos engraçados que o acompanharam em tantas palhaçadas. Com a mão sobre o interruptor, olhou tudo aquilo e, um pouco emocionado, deu um último suspiro e apagou as luzes fechou a porta e foi para o mundo. Alegre e saltitante, em busca da tão sonhada felicidade. Mas ele não tinha pressa, tinha todo o tempo do mundo e, na verdade, estava mais interessado no que essa jornada reservava para ele.


Só que ele não sabia, naquele momento, que a felicidade dele já existia, e estava logo ali, dentro de seu coração...







Rafael Victor