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quarta-feira, 27 de março de 2013

Consciência Atemporal

Não sou de esquecer fatos facilmente;
Não risco poemas desgastados,
Não rasgo fotos amareladas,
Não queimo cartas antigas
ou vendo livros usados.

Guardo tudo num cofre bem lacrado
Todo esse meu relicário do passado.

Porém vivo para o futuro, olhos para o horizonte
Anseio em inovar e corro para frente
Tudo sem tirar os pés do presente.

Tudo aderido a uma força que mantenha:
Minha consciência no Hoje,
Minha Lembrança no Passado,
Minha Lógica para o Futuro.

Memória adormecida, em puro devaneio intinerante
Coração presente, no presente. Mas não somente.
Também ali, ou acolá, aqui, noutro lugar.

Pés no Chão, Cabeça nas Nuvens
Mãos Tateantes, Pernas Vacilantes
Estômago vazio, Pulmões Eufóricos
Corpo Dividido, Espírito Disseminado...

Consciência Atemporal...


Rafael Victor

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Sonhos

Sonho em ser
Sonho em fazer
Sonho em viver
Mas também em quando morrer.

Sonho em amar
Sonho em realizar
Sonho em celebrar
E também em terminar

Sonho, logo existo
Existo, logo sonho.
Sonho para conseguir
Sonho para resistir.

Sonho com a felicidade
Sonho com a pureza da amizade
Sonho, em cada canto da cidade.

Sonho com outros mundos,
Sonho com outras vidas,
Sonho com outros sonhos.

E de mim, isso ninguém tirará
Mesmo que as circunstâncias queiram me parar,
Pois minha força, minha vida, daí provirá
Para que um dia, mesmo que seja em um sonho,
Eu consiga (para longe) voar.

Rafael Victor

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Sorria,

mesmo que a vida, a cada dia que passa, torne cada vez mais difícil manter um sorriso estampado no rosto...
Talvez assim fique mais fácil.

Rafael Victor

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Utopia Infantil (não morre tão facilmente)

(...) Sim, Chorou. Mas entre um soluço e outro enxugou as lágrimas. Pisou o pé, cruzou os braços, virou o rosto. Não iria crescer. Se recusava a isso. E assim foi. Mesmo que tivesse que viver sempre na contramão. Mesmo que se opusesse ao ritmo do tempo. Mesmo que se ferisse ao sofrer atrito com sua própria biologia, teimando em arrastá-lo para o outro lado. E ninguém jamais tiraria isso dele. Essa alegria saltitante, essa ingenuidade infante, e até uma certa manha chorante. E com um sorriso estampado no rosto, um olhar brilhante, e uma alegria contagiante, foi, caminhando, contra a correnteza...

                                                                               
Rafael Victor

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Frente a frente

Estava esperando há algum tempo naquela sala cinzenta. Parecia uma sala de interrogatório: paredes de concreto, uma mesa, duas cadeiras (uma em cada ponta da mesa), um botão aqui, outro ali, uma porta atrás da cadeira dele, duas portas do outro lado da sala, nenhuma janela. A iluminação era bem razoável, permitindo ver todos esses detalhes da sala. Mas não era possível ver nenhuma lâmpada...
Lá não estava frio, muito menos calor. Mas ele começou a suar. E a tremer.

Do nada começou a pensar em sua vida. O que havia feito, o que havia sentido. "Será que fiz algo de bom? Mas o que é bom? Será o certo? Mas, o que é certo? E o errado? Sinceramente, não sei." Continuava a suar. Agora olhava para todos os cantos, nervoso. Até que a porta atrás dele se abriu e ela entrou. Aquela misteriosa mulher encapuzada que o trouxera até ali. Ela entrou, passou a mão no ombro dele e se dirigiu para o outro lado da sala. Baixou o capuz, tirou a capa, revelando um belo e decotado vestido preto. Sua tez pálida, porém macia, seus olhos escuros (pareciam roxos), seu nariz arrebitado, seu busto farto, tudo chamou, surpreendentemente, a atenção dele. Se não estivesse numa situação tão complexa teria olhado-a com olhos um pouco mais audaciosos.

Ela pendurou a capa nas costas das cadeiras. Soltou os longos e ondulados cabelos, brincando um pouco com eles, suspirou e puxou a cadeira. Sentou-se elegantemente. Suas mãos quase transparentes, dedos finos estampando os mais finos anéis e a coloração azulada das unhas, postas sobre a mesa, seus olhos, misteriosos, postos, vidrados no rosto dele. Sua expressão era indecifrável. Poderia estar sorrindo, ou poderia estar reprovando-o. E isso o deixava ainda mais nervoso.

No seu olhar parecia rondar um pouco de curiosidade. Ele, tremendo, começou a rever, mentalmente, toda sua vida. Será que tinha sido mau? Sim, admitia que sofrera sua explosões algumas vezes. Noutras, implodiu, abafando seus sentimentos mais revoltados. Mas sempre, sempre tentou fazer o que acreditava ser certo. E, provavelmente, conseguiu, mesmo que só um pouco. Talvez até tivesse tido seus orgulhos, suas intolerâncias,mas conseguiu o perdão, e perdoou também. Lembrou-se dos sorrisos(e risos, e gargalhadas) que provocou, dos abraços que distribuiu, dos beijos que lançou. Lembrou-se de como se sentia bem ao praticamente se anular ao ajudar quem quer que lhe pedisse ajuda. Lembrou-se de como se sentira culpado quando não conseguiu fazê-lo. Aliviou-se ao recordar que não provocara muitas lágrimas. Lembrou-se de amar todos que o rodeavam igualmente, sendo criticado por isso. Mas agora estava em dúvida. Naquele  momento, naquela sala, naquela presença. Nada parecia mais fazer sentido. Ele parecia estar divisando um destino imutável e inexorável. Deixava transparecer seu desespero.

-Qual o meu destino?

A senhora sorriu.

-O que você acha?

-Não sei o que achar. Tenho medo do que pensar. No momento tenho a sensação de estar esperando por algo irrefutável, sem volta.

-Shh. Você não sabe o que está falando. Do lugar para onde você vai há volta. De todos os lugares nesse universo há volta. Todos têm direito a ir e vir. Todos têm direito a mudar. Todos têm uma segunda chance.

-Então eu terei uma segunda chance?

-Não sei. Não sou eu quem pode lhe dizer. Isso só depende de você. Depois que eu sair, você escolherá uma dessas portas aqui atrás.- Se levantando - Agora, se me der licença, tenho muitos outros e outras para atend...

-Espera!

-...

-Eu tenho uma última pergunta! O que é certo?

-...

-Qual é a verdade?

Ela esboçou um leve sorriso. Pegou sua capa, vestiu-a. Andou lentamente até atrás da cadeira dele. O coração dele mimetizava o ribombar dos trovões de uma furiosa tempestade. Ela colocou o capuz, abaixou-se para perto de sua cabeça e sussurrou em seu ouvido direito:

-Você ainda não sabe?

E saiu.


                                                              Rafael Victor